Artigo

Desafios e Oportunidades na Digitalização do Supply Chain

23 de maio de 2022

A tecnologia da informação está transformando a gestão da cadeia de suprimentos de forma inédita. Nesse novo momento, para estar à frente é preciso rever paradigmas culturais e garantir a geração de conhecimento adequado à compreensão, planejamento e implementação da digitalização da cadeia logística.

Há um caminho complexo entre a produção e a utilização de um objeto. Um caminho que podemos definir como cadeia logística. Muitas vezes ela não é percebida pelo consumidor final, mas está presente em todo sistema socioeconômico e na nossa vida. A gestão da informação é essencial para cadeia logística ou cadeia de suprimentos. São infinitas informações e dados que norteiam a entrada e a saída de insumos e de produtos nas diferentes etapas do processo, que definem as melhores rotas a serem seguidas e as melhores localidades para os pontos de controle. Tudo interligado por um emaranhado de interações.

A produtividade e o sucesso do processo são consequências de uma boa gestão. E quanto mais complexo o caminho, maior a dependência ao acesso ágil e preciso aos elementos necessários para a tomada de decisão.  Assim, apesar de o estudo da cadeia de suprimentos existir há muito tempo, a transformação digital traz uma evolução inédita, algo que precisa estar presente em todas as empresas que buscam vantagem competitiva.

A transformação digital não é mais uma opção para se manter no mercado, ela é fundamental. O que levava de um a dois anos para mudar, agora acontece em poucos meses. As empresas procuram formas de viver isso junto aos funcionários e, na busca de soluções criativas para acompanhar a velocidade dessa transformação, estão cientes e atentas à influência do custo da logística para o resultado e estratégia do negócio. Sabem que se não fizerem algo diferente, não haverá mais como progredir na otimização desses custos. A digitalização é o caminho disruptivo para essa transformação.

Com a transformação digital é possível preparar em poucas horas, ou até automaticamente, real time, os relatórios que organizam os dados e as informações, permitindo assim liberar o capital intelectual para o que realmente interessa: a análise e a tomada de decisão. Pode parecer muito complexo, mas, até mesmo o arquivamento de dados pode trazer ganho de produtividade ao processo, o que, ao final, é ganho de resultado.

Este cenário de mudança implica em vários aspectos. O mais preocupante envolve questões profissionais do indivíduo, ou seja, será que a digitalização das empresas vai acabar com empregos?

Ao contrário, a transformação digital agrega valor a serviços e processos e deixa as pessoas livres para outros tipos de trabalho que agregam muito mais valor. No fundo os postos de trabalho e as tarefas podem mudar, mas a dependência da inteligência humana não se substitui. É claro que é preciso se reciclar, se manter atualizado para acompanhar o ritmo da mudança. Apenas isso. Na verdade profissionais com mais tempo “livre” e menos sufocados pela rotina e pelos problemas cotidianos podem focar no que é de fato estratégico, ou seja, naquilo que realmente motiva o indivíduo. A partir daí é possível ganhar em assertividade e atendimento ao cliente interno e externo. O indivíduo ganha e a empresa ganha.

Há outros cenários relativos à mudança. No fundo, é preciso perceber que não se trata de resistência à transformação digital, mas da natural relutância ao novo. Então como promover a mudança para a transformação digital? Muitas vezes mais importante do que idealizar grandes mudanças é idealizar pequenos projetos e avanços. Mostrar de forma gradativa e consolidada o valor da mudança, fazer com que a cultura empresarial nasça como uma pequena semente e depois se transforme em algo que alerta a consciência das pessoas para o novo, preparando o caminho para a mudança. Assim é feito em inúmeros exemplos que vêm acontecendo nos últimos anos em empresas multinacionais.

O paradigma de que a digitalização traz aumento de custo é outro fator da resistência à mudança. Isso pode até ser verdade no primeiro momento. Mas, na medida em que a nova cultura se estabelece, começa a ficar nítido que há melhoria de produtividade, que não há aumentos de custos ou investimentos significativos e o círculo vicioso se transforma num ciclo virtuoso, em que a empresa toda percebe a importância da mudança.

Como tudo na gestão organizacional, na transformação digital o envolvimento da liderança é fundamental. Define exemplos de boas práticas, mesmo que informais.

Inicialmente é importante estar claro para a liderança que os resultados não são perceptíveis de imediato. Há a necessidade de um tempo para a instalação do processo, a vivência e a consolidação dos resultados. Isso pode levar cerca de um ano ou até um pouco mais. Aí sim, evidencia-se o ganho inerente à transformação digital. É preciso ter resiliência para aguardar os primeiros resultados. Nisso, a crença, o apoio e a participação da liderança é imprescindível. O líder precisa ter sensibilidade para conhecer a dor da equipe, os desafios da realização da tarefa. A partir da percepção da dor importa avaliar suas causas e as possíveis consequências, montar pequenos squads para análise do tema a fim de que se crie um processo que irá catalisar as soluções para os problemas nos pequenos times.

Afinal, a cultura organizacional é algo muito difícil de ser mudado. Para isso é preciso começar na alta gerência e irradiar para os vários níveis da empresa. Se a mudança cultural não for um processo vivido em todos os níveis da empresa, talvez seja preferível não mudar ou buscar alternativas à digitalização. Alternativas que sejam mais bem aceitas pela liderança.

Neste ponto é importante perceber que nem toda mudança precisa começar dentro da empresa. Há soluções possíveis a partir da inovação aberta e do uso do capital intelectual de jovens pequenas empresas, que apresentam soluções inéditas, simples e de fácil aplicação. Startups podem ser a solução ideal para iniciar o processo de mudança.

Existem hoje no mercado muitas startups altamente especializadas na implementação da transformação digital na cadeia logística. Esses pequenos núcleos são se destacam pela criatividade e flexibilidade, enxergam soluções tão simples e efetivas que se mostram óbvias depois de compreendidas. Os HUBs de conhecimento inovação são uma fonte importante de capital intelectual. Acompanhar o que está sendo feito nesses laboratórios de conhecimento pode trazer grande aprendizado e vantagem competitiva. Hoje esse trabalho de cooperativismo entre as grandes corporações e as startups é uma fonte rica para a construção de soluções.

Além disso, associações e entidades de classe desempenham papel fundamental para a transformação digital, seja enquanto polo de reciclagem técnica, ou como oportunidade de criação e troca de conhecimento, tornando o conteúdo novo acessível a quem tem interesse por ele. É indispensável disponibilizar o debate, os canais, os cursos, os eventos. Esse é um papel fundamental. Algo que gera pertencimento e acolhimento, que propicie o ambiente apropriado para o aprendizado. A SAE BRASIL se consolida como a associação da mobilidade brasileira, gerando conteúdo relevante para a logística e digitalização.

Vivemos sob o impacto que a COVID-19 causa, suas consequências ainda ocorrem e não sabemos como tudo isso influenciará as cadeias logísticas do amanhã. No fundo, tudo já mudou e precisamos aceitar esse fato. Os caminhos para ir e levar algo entre o produtor e o usuário estão sob a influência dessa mudança. As necessidades dos usuários vão mudar, as cadeias de fornecimento estão mudando quase que instantaneamente. Em meio a tudo isso, a digitalização é algo fundamental. Precisamos debater, estar muito atentos, preparando os novos caminhos de forma consciente e planejada. Hoje. Agora, e não amanhã!

Sobre a autora:

Anna Valle (anna.valle@flowls.com) é empreendedora, fundadora e COO da Quattro, startup de tecnologia para logística e supply chain que tem como principal produto a FLOWLS, plataforma SaaS para integração, gestão e automação dos fluxos de informações da cadeia de suprimentos, de ponta a ponta. 

Engenharia de Produção (UFSC), pós graduada em Administração pela FGV EAESP, Especializada em Reestruturação de Empresas pelo Insper e em Lean Six Sigma Black Belt pela Fundação Vanzolini. Possui experiência em Logística e melhoria de processos seguiu carreira executiva como diretora de operações e hoje vive o sonho e os desafios de empreender na área.

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